CLARICE INTERROGANDO A PSICANÁLISE
Denise Rocha Stefan
Em primeiro lugar gostaria de dizer que é um prazer e uma grande aprendizagem para mim estar participando da Abralic, mais ao mesmo tempo uma certa ousadia de minha parte, visto meus limitados conhecimentos específicos na área da literatura. Em função disto, considero importante situar que minhas colocações provém de uma leitura psicanalítica, particularmente da psicanálise lacaniana. Afinal, uma escritora de quem se pode dizer “Eu sou uma pergunta” faz apelo e provoca os psicanalistas.
Há alguns anos venho trabalhando questões relacionadas às produções artísticas, em geral, e determinadas estruturas subjetivas; e as interrogações provocadas em mim pela escritura de Clarice Lispector, situam-se também dentro deste campo. Interessa-me particularmente tentar pensar a relação da psicose com o texto ou do psicótico com a produção do texto escrito ou dos escritores com a loucura, sendo que este “ou” não é disjuntivo.
Os artistas sempre intrigaram os psicanalistas, que se sentem impelidos, de uma certa forma a dar conta das condições que propiciam o processo criativo. Sobre este aspecto muito foi escrito, mas predominava dentro de uma perspectiva freudiana clássica a elaboração de “psicobiografias”, nas quais o profissional se aproximaria do texto com seu saber pré-formado e tentaria fazer um exercício de interpretação sobre o autor. Considero desnecessário estender-me sobre as inúmeras problemáticas e deficiências de um tal tipo de aproximação da produção artística, mas é importante destacar que a psicobiografia pode ter exatamente a função de tamponar as questões que o texto deixa em aberto.
Jacques Lacan inverte esta perspectiva propondo que perante uma obra de arte devemos nos posicionar como analizantes, quer dizer, quem ocuparia o lugar do analista seria a obra de arte e o que estaria em jogo seriam os efeitos no sujeito de “ser lido” ou “ser visto” pela obra de arte. Colette Soler acentua que não devemos psicanalisar um texto escrito, ao contrario, é o psicanalista que deve ser bem lido por ele.
É nesta perspectiva que me aproximo do texto de Clarice Lispector, no sentido de me pôr ao trabalho em função das interrogações produzidas por sua escritura e na tentativa de apreender os pontos nos quais Clarice pode nos ensinar sobre seu savoir-faire e lá onde ela provoca a praxis psicanalítica nos seus limites.
Sabemos que o texto de Clarice não é um texto fácil, provoca desconforto, angústia, força progressivamente o limite do dizível e revela-nos um modo todo particular de habitar na linguagem. Em inúmeros de seus livros e alguns depoimentos podemos ver como Clarice trabalhava para buscar a “palavra última”, que tudo dissesse, chegando mesmo a almejar ir além da dimensão de representação, inerente e característica da linguagem humana.
No final de sua obra, Lacan irá trabalhar a “Clínica do Real”, propondo que pensemos o Real, como um dos registros psíquicos (além do Simbólico e do Imaginário), que estaria relacionado com o impossível, o indizível, o que não pode ser escrito ou inscrito, em suma, não representável. Deste Real só nos aproximamos aos tropeções, o bordejamos sempre e às vezes conseguimos inscrevê-lo por pequenos fragmentos. Seria tarefa de um processo analítico produzir um “savoir-faire” deste Real a partir do Sinthoma. Frente a este Real não teríamos outra alternativa que tentar cada vez mais, quando possível, bem dizê-lo. Na minha perspectiva, trata-se de um ponto crucial da clínica psicanalítica atual, sobre o qual Clarice tem muito a nos ensinar e é sobre este ponto que vou me deter neste trabalho.
Poderíamos começar com a hipótese de que sua escritura teria podido suplementar uma instância fundamental na vida psíquica de Clarice.
Trabalhando o texto tão singular de James Joyce, Lacan foi levado a formular a hipótese de que através de sua escritura Joyce foi capaz de fazer-se um Nome-Próprio, criar uma suplência para um elemento psíquico de grande importância que lhe faltava. Graças a este estudo Lacan pode avançar na sua concepção sobre a psicose pois através dele pôde isolar elementos que seriam indicativos de uma provável escritura psicótica num sujeito que nunca apresentou uma crise no sentido próprio do termo. Não cabe no âmbito deste trabalho entrar em detalhes sobre a teoria lacaniana da psicose, mas é importante situarmos que nesta estrutura perceberíamos a falta de um significante fundamental para a dinâmica psíquica, o significante Nome-do-Pai.
Inúmeras são as aproximações que já foram feitas entre o texto de Clarice e o de Joyce, que inclusive a levaram a escrever uma carta a Álvaro Lins dizendo que não o conhecia. Não é meu objetivo nem teria competência para falar sobre “influência literária”, no entanto, parece-me ser possível sustentar que Clarice e Joyce escrevem a partir de uma mesma posição subjetiva. Antes de passar aos elementos do texto de Clarice, seria importante não deixar de dizer que as diferenças entre as duas escrituras são também visíveis e que parece que Clarice não precisou levar o tratamento dado à linguagem ao grau de ruptura que podemos observar em Joyce. Além disso há um dado biográfico em comum que chama a atenção. Embora sua escritura tenha permitido a Clarice e Joyce sustentarem-se numa instância simbólica, não foram suficientes para a transmissão à geração seguinte, visto que ambos tem filhos que podem ser considerados, com grande probabilidade, psicóticos.
Encontramos neste tipo de escritura algumas características em comum, quais sejam:
§ explorar os limites mais radicais da linguagem, testemunhando uma relação muito particular do escritor com a linguagem;
§ ânsia na busca da eliminação da distância palavra/coisa, da dimensão de representação, própria da linguagem humana;
§ procura da linguagem perfeita, da palavra que desse conta do inefável e possuísse um sentido absoluto;
§ poderíamos ler nestes textos não a apresentação de um discurso de caráter mítico sobre a origem, mas a própria encenação do seu funcionamento (este ponto foi trabalhado por Jacques Aubert a propósito de Joyce e é de especial interesse para os psicanalistas);
§ pode-se observar uma correspondência entre este tipo de escritura e uma relação especial com o corpo;
§ uso extremamente particular da sintática e do jogo com as palavras;
§ uma literatura que apresenta características de uma concretude particular;
§ sobressai uma relação singular com a verdade e o saber; a verdade parece apresentar-se cada vez mais como verdade singular, não universalizável e vê-se um encaminhamento no sentido de uma desconstrução em relação ao saber vigente;
§ as palavras e/ou temas tendem a apresentar-se como impostos, “ser pensado por uma palavra” ou “escolhido por um tema”.
Tanto para o psicanalista como para os profissionais do campo da literatura o trabalho com o texto é indispensável, portanto passemos ao texto da própria Clarice.
Comecemos com algumas citações a propósito da função do escrever para ela:
A palavra é meu domínio sobre o mundo[1]
Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder[2]
...escrevo pela incapacidade de entender se não usar o processo de escrever. Escrever é compreender melhor.[3]
Estou atrás do que fica atrás do pensamento [4]
Ao escrever lido com o impossível[5]
Escolhi estas citações nas quais Clarice fala especificamente da importância para ela do “ato de escrever” mas seria mais justo dizer que foi o conjunto de sua obra, as sucessivas escrituras que permitiram a construção e o suporte de sua realidade, que no entanto se lhe apresentam com o aspecto de precariedade sobre o qual encontramos diversos testemunhos. Ao mesmo tempo que o exercício linguageiro lhe proporciona esta suplência, ela indica com clareza os pontos fugidios desta relação. Deixemo-la falar: “o ato criador é perigoso porque a gente pode ir e não voltar mais. Por isso que eu procuro me cercar na minha vida de pessoas sólidas, concretas: de meus filhos, de uma empregada, de uma senhora que mora comigo e que é muito equilibrada. Para eu poder ir e voltar dentro da literatura sem o perigo de ficar. Todo artista corre um grande risco. Até de loucura. Eu tomo cuidado.”[6]
Através desta citação podemos perceber como era necessário para Clarice o suporte de referências concretas vindas do outro, a fim de que através de sua escritura ela pudesse aproximar-se de um modo de concretude outro. Pois podemos perceber na forma como Clarice nos apresenta eventos e narrativas, que ela nos apresenta um texto, por assim dizer, cru, que talvez em muitos momentos deva ser lido ao pé da letra e não como recurso metafórico. Habitualmente nos utilizamos de recursos imaginários e simbólicos para velar a crueza do real. Clarice nos confronta com um texto que indo mais além da realidade força-nos a um encontro com este real do qual fugimos. Talvez daí o efeito de Unheimlich, o estranho/familiar trabalhado por Freud, que o texto clariciano muitas vezes provoca. Entre muitos exemplos podemos citar o trecho de “A legião estrangeira” no qual é relatado o momento em que o professor a chama para falar de sua composição, onde ela diz “Eu vi um homem com entranhas sorrindo”[7]. Penso que devemos ler esta frase com todo o pêso de sua literalidade para podermos pensar o quanto Clarice pôde inscrever, através da escritura, do traumático encontro com o real nesta cena que a horrorizou.
Esta citação também nos leva a pensar no horror que a visão e/ou o contato com o corpo do outro podem produzir, experiência que Clarice nos revela com mestria diversas vezes. Este tipo de relação com o corpo também é sugestivo desta forma particular de estruturação subjetiva.
Clarice nos ensina que deve ser entendida com o corpo pois é com ele que escreve. Lacan vem ao seu encontro quando nos diz que “a escrita em questão vem de outra parte que não de significante” [8], acrescentando que “não se pensa senão com o corpo” [9]. E mais uma vez, Clarice nos ensina: “Vejo a fúria dos impulsos viscerais: vísceras torturadas me guiam. Não gosto do que acabo de escrever – mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço”[10].
Como último ponto neste trabalho, destaco esta característica de frases, palavras ou pensamentos que se impõem e inscrevem ao mesmo tempo o autor e a nós, leitores.
Com sua escritura Clarice, ao representar um marco na literatura brasileira, nos ensina um dos caminhos possíveis para a inscrição de uma ausência que se apresenta a ela de uma forma particular mas que, de uma outra forma, é constitutiva de todos os humanos por causa de sua condição de seres de linguagem.
Em função do exposto, acredito ser possível sustentar que Clarice nos oferece de forma privilegiada, em nossa literatura, o testemunho da possibilidade de invenção de uma suplência para uma estrutura psicótica. Parodiando Freud (“Fui bem sucedido onde o paranóico fracassou”), poderíamos dizer que Clarice nos mostra como pôde avançar, onde muitos psicóticos tombam.
Para finalizar gostaria de salientar que mesmo apesar do exposto, parece-me abusivo qualificar o texto de Clarice de psicótico. Um texto, por si mesmo, não pode ser neurótico ou psicótico e um sujeito pode sê-lo ou não... Os ensinamentos de Clarice são importantes porque eles nos falam da vida, muito mais além de rótulos ou de doenças e cabe a nós o exercício de sabedoria de tentar, de outras formas, bem dizê-los.
Deixo a palavra final com Clarice Lispector : “Eu te invento, realidade”[11]
[1] Berta WALDMAN. Clarice Lispector: A paixão segundo C. L.. São Paulo: Escuta, 1993. p.17
[2] Idem, p.18
[3] Clarice LISPECTOR. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p.23
[4] Idem, p.12
[5] Idem, p.66
[6] Nádia Batella GOTLIB. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995. p.461
[7] Clarice LISPECTOR,. Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.21
[8] Jacques LACAN. Seminário O Sinthoma, inédito, lição de 11/05/1976
[9] Idem, lição de10/02/1976
[10] Clarice LISPECTOR; Água viva, Rio de Janeiro, Rocco, 1998, p.27
[11] Idem, p.68